01/07/09

Jindrich Streit, o “Walker Evans checo"


Quem vê o portfólio do checo Jindrich Streit, um nome que se destaca num país de grandes fotógrafos (Josef Koudelka, Jan Saudek, Václav Jíru), pensa automaticamente no norte-americano Walker Evans - e a referência, mais que um elogio, é a constatação da excelência de suas imagens. Pena que Streit seja pouco conhecido entre nós. O seu nome significa para a República Checa o que Evans (1903- 1975) representou para a América, acompanhando as mudanças sociais e políticas dos EUA desde a época da Grande Depressão.

Aos 63 anos, Streit é o herdeiro de uma tradição. De Václav Jíru aprendeu que a abordagem documental fria é um desrespeito aos modelos involuntariamente colocados diante da câmara. De Koudelka, nascido na Morávia, como Streit, herdou a solidariedade pelo homem das ruas. E da combinação de ambos surgiu o desejo de percorrer vilarejos e cidades da Morávia como Bruntál, perto da fronteira polaca, registando o quotidiano de camponeses esquecidos pela história.

Streit, hoje professor de fotografia criativa na Universidade Silesiana, nem sempre teve o seu talento respeitado no seu país. Durante o regime comunista, o seu trabalho foi visto com desconfiança pelas autoridades governamentais, que identificavam nesses registos tentativas de difamar a política estatal. O seu testemunho das condições de vida nos vilarejos da Morávia rendeu-lhe o confisco de negativos e uma passagem pela prisão. Trágica miopia totalitária. Imagens suas de aldeias e vilarejos como Topolany ou Mladec, na região de Haná, Morávia, não são manifestos políticos, mas fragmentos de uma crónica amorosa da vida dos camponeses locais.

A exemplo de Evans, Streit solidariza-se com esses trabalhadores esquecidos às margens do progresso. O seu registo da vida camponesa em vilarejos como Bruntál, parafraseando o que Geoff Dyer disse do americano, faz do documental um género inseparável do lírico. Reforça esse parentesco com Evans o facto de Streit também preferir o preto e branco (o americano considerava a foto a cores "vulgar", a despeito de ter usado uma Polaroid no fim da vida). Streit une essa tradição documental da Magnum com uma abordagem mais íntima, mas nem por isso leve, exemplos dos registos "pesados" do fotógrafo checo são: crianças aprendendo a cortar carne ou brincando com armas em regiões pobres da Morávia.

Essa tendência ao trágico, reforçada pela tonalidade espectral dos seus personagens, é deixada de lado em algumas fotos, como a do encontro de um velho e uma criança com um homem vestido como um astronauta em Bruntál, registado em 2005. É um violento contraste com a solidão do jovem que se banha num bebedouro de Pardubice (região central da Boémia) ou a reunião de operários de uma fábrica de cal no vilarejo de Mladec. Em cenas como essa, o estado de embriaguez traduz uma atitude escapista daqueles reprimidos pelos invasores estrangeiros.

Se Evans procurou "representar as coisas em relação a si mesmas" sem intervenção ou tendência à idealização, é possível dizer o mesmo de Jindrich Streit.

Foto: Jindrich Streit

Ver o sítio de Jindrich Streit Aqui.

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